
Quando nos conhecemos não podíamos sequer imaginar que íamos estar aqui agora e, quando voltámos a cruzar-nos, anos mais tarde, as probabilidades continuavam a parecer não jogar a nosso favor.
Eu tinha-me desfragmentado (aliás, o meu coração) havia poucos meses e pairava dormente pelo tempo e pela vida. Tinha perdido, achava eu, 1/3 da minha existência e quase todas as minhas referências, faltava-me o chão de tudo o que eu conhecera até aí.
A minha transparência tornava-me quase invisível, podias facilmente ter passado por mim sem me ver. Naquela altura restava muito pouco do que eu tinha sido e obrigava-me a sair da cama todos os dias e fingia que tinha uma razão para isso. Como se me tivesse apagado, sem vontade de nada nem de ninguém.
Tiveste a paciência e o amor de recolher todos as partículas que me completavam e colaste-as uma a uma, sem urgência nem exigências, sempre com as palavras certas, uma extraordinária lucidez e um sentido de humor demolidor.
Às vezes acho que te devo quase tudo aquilo em que me tornei porque não me colaste pela mesma ordem. Inverteste-me o sentido e eu obriguei-me a avançar, em vez de cristalizar no buraco negro e fundo para onde me tinha deixado sugar.
Passaram onze anos.
Não me arrependo nada de termos dispensado tempos mais tarde a assinatura do papel e a plateia e a festa (coisas com as quais nunca me identifiquei) e muitas outras coisas e de nos termos mantido simples e, consequentemente, felizes.
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(translation will soon be available)

















































