Este homem sempre escreveu canções sobre o amor nas suas mais variadas formas e é impressionante como foi ignorado durante décadas no Brasil e, consequentemente, no resto do mundo. Segundo as suas próprias palavras foi enterrado vivo. Há dois anos, num concerto gratuito, assisti ao seu génio ao vivo e rendi-me às evidências, admirando a sua capacidade de re-invenção quase aos 70 anos. Apesar dos problemas de audição que o afectam foi um concerto magnífico. É, na minha opinião, um dos maiores autores brasileiros e o disco de 1976 "Estudando O Samba" (raridade bastante difícil de encontar) um dos melhores discos da música brasileira e, por isso, intemporal. Para além disso tem um sentido de humor demolidor e uma visão sobre o mundo que merecem ser testemunhados.
Passa uma pessoa mais de um mês em contagem decrescente, a criar expectativas bastante altas e, vai-se a ver, são deitadas por terra em poucos minutos... Passo a explicar: bilhete comprado para a 2.ª fila, com a antecedência de quem não quer mesmo perder por nada o concerto de dia 31 de Maio no São Jorge; chego a horas (que isto hoje em dia é imprevisível se consigo ou não cumprir um horário...) e depois o homem entra em palco após uma introdução de duas músicas do senhor aqui da esquerda (aka Dosh) e que, quanto a mim, conseguiu salvar a noite. O som estava mau, foi melhorando ao longo do concerto mas nunca chegou a estar bom. Esperava qua a postura fosse bastante diferente e tive a sensação de débito durante todo o concerto, com a confirmação de apenas 1 encore apesar da insistência do público (o que me cheira sempre a uma falta de vontade que torna falsas todas as palavras proferidas apenas por obrigação e falsa simpatia: "naos adouramous Lisboua!"). Na verdade, não posso dizer que tenha sido mau, ele é um excelente executante e técnico, um virtuoso, mas faltou-lhe aquele toque que torna alguns concertos inesquecíveis. Deixo sempre impressionar-me pelos samples e loopings, mas nem esses foram bem executados e, se por vezes o erro até pode ter uma certa piada, neste caso soou a desleixo puro e duro. Já o Sr. Dosh impressionou bastante com o seu ar impenetrável e compenetrado, mudando das baquetas para o teclado, comandando praticamente todas as operações electrónicas que se iam transformando em música. Tendo eu que seleccionar muito bem o que posso ou não ver hoje em dia talvez tenha tido uma visão pouco tolerante sobre o espectáculo, mas a verdade é que me soube a pouco. Conseguiu voar, mas baixo.
Ps.: abonam a favor as meias às riscas iguais a umas que há aqui em casa e que, por coincidência, foram também usadas nesse dia!