8.11.09

It makes me want to cry


Às quatro pessoas a quem chamei avós tive a sorte de somar mais uma, a minha tia-avó Emília.
A tita Mila, como carinhosamente sempre lhe chamámos.
Irmã da minha avó materna, solteira e 13 anos mais nova, foi morar com os meus avós depois de ter cuidado do pai até ele morrer.
De todos é a única ainda viva, mantendo vivas também muitas das minhas memórias de infância. Pessoa simples e boa, com um sentido de humor grande, e um coração ainda maior, entretinha-nos com as imensas lengalengas, contos tradicionais e canções que nos contava e cantava com o seu cerrado sotaque alentejano.
Tive a sorte de ser a neta mais nova, numa altura em que o meu avô já estava reformado e tinha todo o tempo do mundo para mim. Ía buscar-me à escola com rebuçados de ananás e de morango no bolso e, como o meu outro avô morreu quando eu tinha 2 anos, foi o único avô que conheci.
Lembro-me das semanas divertidas que eu e a minha irmã passávamos com os três, de como toda a comida (incluindo frango cozido) sabia tão bem, do cheiro das maçãs camoesa e das bravo de esmolfe estendidas no chão, dos tomateiros e das roseiras no quintal, dos passeios adorados a ver o "cão mau" pela mão do meu avô, do bolo mármore (ao qual chamávamos e chamamos da vaquinha) e da torta da minha avó, do cheiro da roupa lavada que a minha tita estendia em cima de uma cadeira enquanto esperava pacientemente que eu lhe desse as molas.
Sinto muito a falta de todos e é bom para mim reavivar estas memórias de tempos e cheiros tão ricos e felizes.
Mas hoje fiquei sem palavras e em lágrimas e com um nó que se me atou no estômago e que me fez voltar à angustia de saber que não é só o corpo que envelhece.
À hora da visita, a minha querida tita tratou-me por senhora, agradeceu muito a visita e disse-me que não sabia quem eu era.
E foi com a visão e as ideias turvas e com a voz completamente embargada que tentei falar-lhe de muitas das coisas bonitas que vivemos juntas e que, apesar de já não estarem nela, permanecerão em mim para sempre.
É muito duro perder alguém, mas ir perdendo dói ainda mais.

6 comments:

Virgínia said...

Doi ainda mais mas também nos vai preparando... Mas a vida é realmente muito dura, disso me convenço cada vez mais.
Um abraço apertado***

said...

Como sei o quanto isso dói amiga... fico triste contigo... :(

sofiab said...

Ohh, abraço grande e forte, Rita...

Anonymous said...

Eu preferia, dizer-te que "não sei o que isso é"...mas infelizmente a minha avó também vai perdendo as suas capacidades.
Ainda se lembra quem sou , mas já não pode sair sozinha porque perde-se.
Enfim...vai-se esquecendo das coisas, é muito triste para nós, mas imagina como é para ela.
Nos momentos lúcidos em que tem noção que está a perder capacidades, chora...
O que dizer???
Eu tento animar...Bjs

karura said...

sim, pois é.. mas... gostei da parte do bolo vaquinha! Nunca tinha pensado nisso!

CoisasdeGatos said...

adoro "avós", adoro o conceito e as memórias. lamento a perda de todos os meus frequentemente, e apadrinho novos avós de quem me é querido quase compulsivamente. este texto é lindissimo e tão intenso como a dor que pareces trazer no teu peito... perder alguem nunca é fácil, seja devagar ou muito devagarinho. força.