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As semelhanças deste céu com o meu actual contexto são para mim muito evidentes: apesar das nuvens, negríssimas, procuro e consigo vislumbrar algum azul e tento não me esquecer de que o sol brilha sempre acima delas.É só uma questão de tempo e, na verdade, sempre me disseram que saber esperar é uma grande virtude. E eu sei.
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The similarities of this sky with my current context are very clear to me: in spite of clouds, so very black, i can glimpse some blue and try hard not to forget that the sun always shines above them.
It's just a matter of time and, in fact, i was always told that waiting is a great virtue.
And that's something i know it's true.
Dou por mim a pensar no que faria se me dissessem, de repente, que não vou ter tempo de envelhecer. De que tudo vai acabar mais depressa do que planeei, de que os muitos anos que achava que ainda tinha para viver eram uma certeza que já não posso ter.
Todas as coisas que eu teria para dizer e fazer durante uma vida que, pela lógica, ainda se avizinhava longa, condensadas num curto espaço de tempo. O tempo que restasse.
Definir as prioridades, o essencial, é uma coisa que me é fácil, apesar da desorganização pela qual a minha realidade se pauta tantas vezes.
A minha capacidade de síntese, que já chegou mesmo a ser adjectivada de extraordinária, a ser derradeiramente posta à prova e, a verdade, é que no meio dessa lista que teria que elaborar à pressa, entre o que não poderia deixar de dizer e fazer, entre muitas outras coisas, estarias tu.Não segundo o grau de importância, porque esse eu já não sei qual é.Mas, apesar de apenas um item, numerado, no meio de todas as coisas importantes, as inadiáveis, as fúteis e as inesquecíveis, continuas a ter o teu lugar.
Na vertigem que é a visão que o espelho me devolve, penso no que já não reconhecerias, em mim e nos meus escombros, se os nossos olhares voltassem a cruzar-se como antes.
Nos cabelos brancos que já quase me cobrem grande parte da cabeça, mas que pinto porque não gosto de me ver velha.
Nos olhos, que para ti sempre foram cinzentos ou azuis, conforme os desejos da cor do céu, e que hoje em dia todos teimam em dizer-me que são verdes. E que já não vêem longe como dantes, e que são tristes, e têm já algumas rugas, e já não brilham, e que perderam a conta às lágrimas que choraram por ti. Talvez seja também por isso que perderam a cor, que desbotou como a da roupa ao fim de muitas lavagens, não resistindo aos imensos dilúvios que me inundaram os dias.
As contas que faço aos anos que passaram assustam-me.
As contas que faço aos anos que faltam assustam-me ainda mais.
E a vida continuou sem ti, e envelheço sem ti, e vejo-me ao espelho, não todos os dias, mas há dias em que penso no que dirias e se continuarias a achar-me bonita.
Não que isso importe.
É feia a cicatriz que o espelho me devolve, juntamente com outras mais insignificantes, por trás da imagem que me compõe.
E dou por mim a pensar que ninguém devia morrer assim para ninguém.
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In the vertigo of the vision that the mirror returns everytime i look at my reflection, i think about what you wouldn't recognize (in me and my ruins) if our eyes would ever meet again.
The white hair, that almost covers a large part of my head, but that i dye because i don't like seeing myself so early aged.
In the eyes, which for you have always been gray or blue, depending on the wishes of the color of the sky, and that nowadays everyone insists in seeing green. And that don't see as far as before, and already have some wrinkles, and no longer shine, and have lost count of the tears they cried for you. Maybe that's why they lost their color, which faded as the clothes colors after many washes, not resisting the massive floods that filled my empty days.
I get scared when i think of how many years have passed.
The remaining years scare me even more.And life went on without you, and i grow old without you, and i see myself in the mirror, not everyday, but there are days when i think of what you would say and if you would still find me beautiful.
Not that it matters.
It's a big and ugly scar that the mirror shows me, along with more insignificant others, behind the image everybody sees.
And I find myself thinking that no one should die like this to anyone.